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ABSURDO: Reintegração de Posse Plínio Ramos

18.08.05 - Desocupação de Edifício da rua Plínio Ramos, dia 16 de agosto de 2005.

Resumo: Relato do despejo violento ocorrido na Ocupação Plínio Ramos, São Paulo - SP.

O Grupo Risco chegou ao edifício Plínio Ramos às 17h do dia antecedente à reintegração de posse, para pintar duas faixas: uma de 20 metros, escrito "direito à cidade", que cobriria o prédio inteiro na vertical. Outra, escrito "justiça", que cobriria a porta de entrada.

Com a ajuda de dezenas de crianças, moradoras do prédio e região pintamos as faixas antes da meia-noite. Depois o grupo se
dividiu, com duas pessoas dentro do prédio e quatro do lado de fora. Ainda no fim da madrugada, uma multidão se reuniu em frente ao
edifício a fim de resistir pacificamente à ação de despejo, enquanto as famílias e companheiros aguardavam a polícia dentro do prédio.

Quando o choque chegou mais próximo, os moradores com seus filhos e crianças de colo foram às varandas para mostrar união. O pessoal na rua se organizava em uma barreira, mas logo decidiram ficar concentrados em frente às portas de entrada. O choque vinha em fila, avançando. Para que ele não avançasse mais, todos sentaram pacificamente no chão. Os policias começaram então a lançar spray de pimenta, e ficaram mais agressivos após serem atingidos por coisas arremessadas do prédio. Começaram a atirar bombas de efeito moral, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha nas varandas e nos manifestantes da rua. Os moradores recuaram para dentro do edifício, ficando concentrados em um salão. O medo de que jogassem bombas neste salão era grande, pois lá estavam todas as mulheres e crianças. Um pastor comandava orações para tentar acalmar os moradores, ao fundo se ouvia o barulho das bombas que estouravam do lado de fora.

Enquanto isso, em frente ao prédio, a violência pairava no ar. Polícias acertavam moradores com seus eficientes e certeiros rifles de bala de borracha. Um dos manifestantes foi atingido bem no meio do nariz, de onde agora escorria em sangue. Alguns moradores atiravam pedras em direção aos policiais em resposta a suas balas e bombas; esses objetos não os atingiam, apenas davam a eles justificativa para novas rajadas de tiros e lançamento de bombas. Por longo tempo choros e gritos de ira e injustiça soavam no ar. Uma mãe desesperada procurava sua pequena filha que havia desaparecido em meio à confusão. Um policial, acalorado pelos acontecimentos e insensível ao desespero da mãe, exigia silêncio e distanciamento da
mesma em relação ao grande bloco formado pelos policiais A mãe aos prantos e berros, ao invés de achar sua filha, foi, inacreditavelmente, presa pelo policial. A justificava do policial? Desacato à autoridade provocada pelos gritos dela .

Em meio a balas, bombas e pedras, jornalistas, estudantes, moradores e manifestantes tentavam saber o que estava ocorrendo do lado de dentro do edifício. Passada a agressividade física do embate, a polícia isolou a rua e veio a angústia em relação ao que acontecia dentro do edifício: Será que os policiais entraram no prédio? E as crianças, as mulheres, o que será que a polícia estaria fazendo? Será que as pessoas estavam sendo violentadas como foram aqui na rua?

Do lado de fora, os manifestantes que sobraram aguardavam ansiosos para que aquele pesadelo terminasse sem mais danos, e o mais rápido possível. Lá dentro, ao saberem que o choque estava prestes a entrar, os moradores decidiram sair pacificamente - cantando de mãos dadas - primeiro mulheres e crianças. Ao descer, policiais enfileirados ficavam na escada, batendo o cassetete no chão, gritando agressivamente para que as pessoas descessem mais rápido e que calassem a boca. Quando se chegava ao salão de saída, na esperança de sair pacificamente, os policiais pegavam principalmente os homens jovens: - Mãos na parede! -Olha pra parede! – selecionando as pessoas que não poderiam sair. Lá embaixo, do que provavelmente foi a garagem deste prédio abandonado, o silêncio era total: onde estava o movimento da rua? E a imprensa? E os advogados? Parecia uma emboscada.

Do lado de fora, os policiais – um exército de 300 integrantes – haviam isolado o quarteirão, as pessoas tinham que ficar distantes do
prédio, nem os advogados podiam entrar. Mulheres gritavam por maridos e filhos que não saiam de dentro do edifício, menores que haviam sido detidos na saída pacífica para "revista policial". Alguns homens saíam do prédio mancando por terem sidos espancados – sem marcas, claro - e , com o tempo, a tensão e o desespero da espera angustiada chegavam ao seu limite.

Lá dentro, um senhor tentava rezar, juntando as mãos como podia, pois ainda tinha que as deixar encostada na parede. Depois os policias juntaram quem era universitário: cerca de 8 pessoas. Um policial perguntou para uma estudante com câmera, que não conseguia parar de chorar: - O que você tem aí filmado? Ela respondeu: - Eu filmei mais as crianças e mulheres. E ele: - Socialismo, né? É nisso que vocês acreditam? Os homens retidos dentro do edifício ficaram ainda por cerca de uma hora com as mãos na parede, não podendo olhar para trás para ver o que os policiais estavam fazendo. O clima era de terror, o choque andando de um lado para o outro, aterrorizando, humilhando e, às vezes, espancando. Eles tinham poder total, a testemunha mais próxima provavelmente não se encontrava a menos de 100 metros de distância. Uma advogada tentou entrar, mas foi segurada contra a parede por policiais. Enquanto isso, os policiais entravam nas salas do prédio, filmavam um quadro do Che e do Mariguella, como se fosse algum fator de criminalidade. Vasculhavam livros, anotações, cadernos etc. Depois de muito tempo, entraram os advogados.

Do lado de fora, o desespero diminuiu ao saber que as pessoas que ainda não haviam saído estavam sendo levadas para delegacia. Levaram os 21 detidos – sendo 8 universitários - para o 1º DP. Dentre eles, um menino de 14 anos, que foi espancado. Um sem-teto, alto e negro, foi escolhido aleatoriamente para ser acusado de ter jogado o algo que golpeou o único policial ferido. Nós o vimos passar algemado pela nossa frente. Por que ele precisa de algemas e os universitários não? Falamos com o advogado e eles retiraram as algemas dele.

Quatro horas depois, saímos da delegacia. Em pouco mais de duas horas, o edifício estava vazio, até as faixas e cartazes de solidariedade foram arrancados. As pessoas sentadas na rua e nas calçadas improvisavam o almoço dos filhos. E a maioria estava,
agora, sem ter onde morar... Sem nenhuma espécie de abrigo provisório cedido pela prefeitura.

O que pudemos presenciar não se sente em livros, não se aprende em debates nem na leitura de jornais, não se vê na universidade. Choro de mãe, choro de criança, a revolta dos pais diante da impotência perante de cassetetes e bombas. A Força Tatica da policia fria, sem crachás de identificação, descendo o cacete, dando tiros, estourando bombas de gás lacrimogêneo, prendendo os mais exaltados e reprimindo com frieza.

Tudo para representar o poder de uma elite de grandes proprietários e especuladores imobiliários que mantêm inúmeros edifícios vazios no centro de São Paulo.

A "Justiça" e o "Direito à Cidade" resistiram enquanto puderam. As palavras. Mas não foi apenas enquanto palavras que elas foram arrancadas à força. É lastimável.

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