autores: Grupo Risco
texto publicado em:
Rizoma.net (revista eletrônica)
“Documenta 12 Magazines: Documenta de Kassel 2007”, Taschen.

Resumo: Descrição de intervenção realizada durante a integração de posse da Ocupação Plínio Ramos, São Paulo - SP.
Uma batalha na Rua Plínio Ramos, centro de São Paulo, foi notícia nos jornais e telejornais do país do dia 15/08/2005. As 79 famílias que ocupavam há 2 anos e 7 meses o edifício abandonado Plinio Ramos, receberam ordem de despejo e foram expulsas da ocupação pela força tática da polícia militar. A ação violenta dos policiais transformou a rua em um campo de guerra, e esse tumulto foi exposto e televisionado em diversos meios de informação. Sobre a fachada do prédio, faixas com mensagens de protesto faziam pano de fundo das reportagens televisivas. Coladas no edifício antes da desocupação e já esperando essa possível exposição, tentava-se divulgar a injustiça contra os moradores que habitavam o edifício, abandonado há mais de 7 anos.
Quando recebemos a noticia do despejo tentamos nos organizar para ajudar de alguma maneira. Ás vésperas da reintegração de posse, após algumas reuniões do Grupo com o moradores, tivemos a idéia de enrolar o prédio com um grande pano no dia do acontecimento, fazendo uma humilde referencia aos artistas Christo e Jeanne Claude [2].
Buscamos então panos baratos, e tentamos reencontrar aquele generoso comerciante que doava panos para a festa do Parangolé [3]. Acabamos por comprar uma grande faixa branca de 1,50 por 30,00 m e a partir desse material desenhamos um pequeno croqui: a faixa cobriria todo andar inferior, embrulhando a base do edifício de maneira a bloquear simbólicamente a entrada dos policiais que despejariam a ocupação. Pensamos então que o mais interessante seria escrever na região da porta de entrada a palavra "justiça". O pano estaria preso de tal modo que eles teriam que rasgar a palavra para entrar no edifício, e com os meios de comunicação presentes, se desenharia uma imagem midiática favorável aos sem-teto: uma Homenagem a Fontana em tempos de guerra.
No dia anterior à desocupação, chegamos no prédio e nos deparamos com alguns imprevistos. Outros grupos e o próprio movimento tinham preenchido o prédio com faixas e cartazes. A idéia de "embrulhar" a parte inferior do prédio com o pano branco ficou inviável. Mas a porta de entrada continuava intacta, e aberta. Decidimos então que cobririamos somente a região da porta com a palavra "justiça" e com o pano restante faríamos uma grande faixa atravessando verticalmente toda extensão do prédio com a frase "direito à cidade". Esticamos o pano na rua e com a ajuda das crianças moradoras da ocupação pintamos de tinta vermelha a "justiça" e o "direito à cidade". Ao longo do processo foram chegando mais e mais crianças até que a rua se transformou em uma guerra de tinta, pintando a frente do edificio de pingos vermelhos. As marcas no asfalto lembravam marcas de sangue, quase uma ironia a guerra verdadeira que presenciamos no dia seguinte, mas tudo não passava de uma inocente brincadeira de criança. Ajudados por algumas crianças subimos no telhado do edifício de cinco andares, onde juntos prendemos a grande faixa escrito "direito à cidade". Para fixar o pano com a palavra "justiça" na porta de entrada usamos cola de contato. Como a porta só seria lacrada depois que entrassemos todos, deixamos o pano da porta semi-preso para ser fixado pelos outros integrantes do Grupo que que só chegariam mais tarde, acompanhando o despejo do lado de fora. No dia seguinte o pano já estava colado sobre a porta, e até hoje não se sabe por quem.
Durante a reintegração de posse a polícia, com mais de 200 homens, entrou em choque com os moradores e manifestantes disparando bombas de gás, spray de pimenta, agredindo, retendo moradores e manifestantes.
Depois da pancadaria, a rua foi isolada pela polícia. Do alto, os helicópteros filmaram a faixa direito à cidade na escala necessária, mas pensamos que não haveria ninguém na área isolada para filmar os policíais arrombando a porta do edificio e rasgando a "justiça". Assim ficamos supresos quando assistindo à TV à noite, vimos a cena patética dos policiais puxando aquela faixa sem saber o quão forte é uma cola de contato, finalizando com exito a nossa intervenção . A cena foi repetida dezenas de vezes nos principais telejornais do país e jornais da cidade, entrando até como uma das imagens que compunham a abertura do jornal da Ana Paula Padrão (SBT).

foto: “integração sem posse”
Os Sem-teto compreendem muito bem que uma forte arma de guerra está na mídia. Após o despejo acamparam bem em frente ao prédio esvaziado, e escreveram frases nos tapumes de seus barracos: "Onde está o estatuto da criança e do adolescente? ,"Onde está o estaduto das cidades?","Qual é a função social da propiedade urbana?", entre outras. Gerando uma nova imagem de confronto, uma espécie de ruído nos meios de informação hegemônicos.
A "Homenagem a Fontana" em tempos de guerra demonstra um ato vivo e descontrolado que não tem a ver como gesto genial do artista, mas a violência e brutalidade de um rápido golpe à cidade.
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1_Título de obra do artista Nelson Leiner Ao contrário de Fontana, que ao rasgar a tela com golpes rápidos evocava o gesto genial do artista, Nelson Leirne negava qualquer aspecto genial do gesto espontâneo. O artista fabricava quadros em chassis de alumínio, com tecidos coloridos e no lugar dos rasgos: zíper. Desta maneira todos poderiam fazer e desfazer o rasgo. Os quadros eram expostos em lugares abertos, como o vão do masp, onde as pessoas pudessem brincar com as obras. Uma ironia à banalidade com que são vistos os gestos que outrora foram autênticos. Indo de fora para dentro, a obra de arte vale-se dialeticamente da história da arte; afirma-a para em seguida negá-la. Nesse sentido ocupa lugar de destaque a paródica "Homenagem a Fontana", de 1967, onde um zíper substitui o corte consagrado pela história da arte.
2_Casal de artistas contemporâneos que trabalham com intervenções no espaço de forma a transformar a paisagem e sua percepção, de maneira efêmera e temporária para, no fim, reciclar a obra de arte e devolver, intacta, a paisagem que serviu aos seus propósitos. Para saber mais visite: http://www.christojeanneclaude.net/
3_A Festa do Parangolé é uma evento tradicional do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, inspirada na obra do artista Hélio Oiticica.