Entrevista: Ocupação Paula Souza

20.07.05

foto: Eduardo Costa - grupo risco

Resumo: Trancrição de entrevista com moradores da Ocupação Paula Souza, São Paulo - SP.

dados da ocupação:
-- 350 moradores.
-- Edifício de Propriedade da Trans Brasil na Rua Paula Souza - Centro - São Paulo

-- Reintegração de Posse marcada para 19 de Setembro de 2005

No dia 20 de Julho de 2005, o Grupo Risco esteve na ocupação da rua Paula Souza para uma entrevista com a liderança da ocupação. Entrevistamos duas pessoas [ identificadas como "P.S._01" e "P.S._02" ], que organizam as atividades do edifício e cuidam dos tamitações judiciais. Esta organização é espontânea e não pertence a nenhum movimento por moradia organizado. Os dois entrevistados não quiseram se identificar por medo de repressão.

A entrevista aconteceu uma semana antes da data que havia sido estipulada para que os moradores deixassem o local. No entanto, durante a entrevista, os moradores disseram que essa data havia sido prorrogada por mais um mês. A reintegração está marcada para 19 de Setembro.

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::[ Entrevista ]::

G.R.: Vocês estão aqui desde quando?

P.S._01: Desde novembro de 2002.

G.R.: Este prédio é particular... Como foi o processo?

P.S._01: A gente chegou aqui... acho que uns 10 meses depois que eles ocuparam.

P.S._02: E a informação que a gente teve; é que esse prédio era da companhia aérea Trans Brasil. Acho que abriu falecia e, segundo essas pessoas que estavam a mais tempo aqui... na época tinham as pessoas organizadoras, antes de entrar aqui, este prédio já estava paralisado fazia questão de dois anos. Foi quando eles resolveram entrar...

P.S._01: Eles entraram dia 11 de Novembro de 2003. Faltando cinco dias para completar um ano, eles entraram com reintegração de posse. E daí... Agente não estava sabendo que eles tiveram oficial de justiça aqui. Por que, na época, era outras pessoas. Agente só era morador.

G.R.: Você diz “eles”. Era um movimento organizado?

P.S._01Não foi o pessoal que entrou, que invadiu. Eles que estavam controlando e agente começou a ajudar voluntariamente. Nós estamos ajudando de voluntário. E daí o pessoal conversou com vizinho... Eles saíram. E ai que começou a ficar o prédio sozinho. Agente falou; vamos se reunir nós moradores e vamos nos conscientizar e manter ordem aqui. Manter limpeza, manter portaria... Por que chega visita, chega pessoa procurando. Pelo menos vai ver que o prédio está limpinho. Tem uma portaria para receber vocês ou qualquer outra pessoa. Então o pessoal concordou: “Vamos sim”. Então, estamos trabalhando em conjunto, entendeu?

P.S._02: E nós tentamos também evitar baderna dentro do prédio. Tipo, alguém se infiltrar. Querer aproveitar que o prédio é uma ocupação de famílias humildes, querer fazer tráfico de drogas aqui dentro. Essas coisas não existe. Já teve algumas ocasiões de vir... algumas não, várias ocasiões, de vir polícia, mas é coisa besteira. Discussão de casal, marido e mulher, uma discussão de vizinho... ai acontece de vir uma viatura, mas nunca tem polícia aqui para abordar trafico de bandido, traficante... Morte dentro do prédio nunca teve. Para não dizer que nunca teve; já teve uma, mas foi de morte natural...

P.S._02: Nunca teve coisas assim mais agressivas, de violência. A gente sempre procurou manter, da melhor maneira possível a organização do prédio.

G.R.: Teve algum para ocupar um prédio aqui no centro? Ou o lugar que estava disponível, vocês resolveram ocupar...? A diferença é que vocês chegaram depois, né?

P.S._01: Chegamos depois.

P.S._02: A gente chegamou depois, né? Agente morava em Itaquera. Morava de aluguel e uma conhecida, que sempre estava por aqui e que conhecia o pessoal que ocupou. Ai falou para nós, né? Então essa é nossa primeira experiência de...

P.S._01: Nossa primeira experiência de movimento.

G.R.: Vocês saíram de Itaquera e vieram para cá porque era mais próximo...

P.S._01: Era mais próximo... Eu morava em Itaquera e trabalhava em Pinheiros. Eu gastava 6 conduções. Tinha que acordar de madrugada. Então..”Ah, vamos”. Eu falei: Ah, Não. Nunca morai ali. “Ah, vamos gente. Tenta pelo menos economizar o dinheiro do transporte, o dinheiro do aluguel... E vamos ver o que vai dar.”. Ai eu falei: Ta bom! Vim e estou aqui até hoje.

G.R.: É melhor aqui?

P.S._01: É... Melhor aqui entre aspas. Por que acho que agente tem que ter uma moradia digna. A gente mora nuns barracos de tabua... É só quebra galho.

G.R.: A localização é melhor, só que precisa ter uma estrutura melhor? P.S._01: Precisa sim ter uma moradia digna... Uma estrutura melhor... Por que moramos aqui num barraco. Ta servindo? Ta sim. Mas a gente precisa de uma moradia digna. Somos trabalhador. A gente precisa de que? Dá um certo conforto para sua família... os outros familiares. Porque aqui tem muita gente boa. Muita gente trabalhadora. Muita gente. que tem um trabalho fixo. Que tem condição de pagar... Tipo assim; um projeto da Prefeitura... um órgão... que tenha um projeto... que de para pegar o pessoal... O pessoal daqui tem perfil, entendeu?

G.R.: A média de integrantes por família deve ser em torno de quatro...? Deve ter em torno de umas quinhentas pessoas aqui no prédio.

P.S._01: Tem 194. Mais... 194 entre adultos e adolescentes. 144 crianças e 10 entre idosos e deficientes. Dão 350 e poucos...

G.R.: O movimento tem nome...? Como é que é?

P.S._01: Não temos um movimento aqui. Esse aqui é Ocupação Paula Souza.


foto: grupo risco

G.R.: Já teve ou não?

P.S._01: Não. Já teve?

P.S._02: Não. Teve um pessoal que estava apoiando, mas devido um desentendimento entre eles mesmos, terminaram se afastando. Foi quando ficou meio abandonado. Ai agente resolveu, voluntariamente, procurar se unindo aqui no prédio e fazer as coisas entre a gente mesmo aqui no prédio. Procurar manter a organização da melhor maneira possível. Então, estamos ai até hoje. Foi quando aconteceu... Essa bomba chegou agora esse final de semana na sexta feira. Uma viatura...

P.S._01: ... a responsável aqui não tem. Responsável aqui somos nós. Mas é referente a o que? “Eu acho que...” Eles nem sabiam me informar... “que é reintegração de posse. Mas é para vocês comparecer no Batalhão da PM””. Acho que na [ Avenida ] Vergueiro, né? “Na segunda feira às 15hs. E é para vocês levar um advogado”. “Mas que advogado?”.”Não tem””Se não tiver, vai só.” Ai agente lembramo do Centro Gaspar Garcia, que é... de Direitos Humanos. Convênio com a Procuradoria Geral do Estado. Daí, fomos lá. E eles... “Vamos ver o que agente faz.”. Que dia que é? Ai eu fui na segunda feira de manhã...

G.R.: Segunda feira, que dia?

P.S._01: ... Segunda feira que dia que foi? Agora... dia 18 [ de julho de 2005 ]. Isso. Ai fomos lá. Ai a advogado já estava lá. Sentou com ele e conversou. Ai que foi que agente foi saber que era despejo sim. Despejo nesta segunda feira agora dia 25 [ de julho de 2005 ], às sete horas da manhã. Daí o pessoal entrou em pânico. Eu mesmo vim de lá... Ela falou: “Calma, agente vai tentar fazer alguma coisa. Conversa com o pessoal para ter calma. Não tem nada para fazer com vocês no momento, mas agente vai se eu consigo dar pelo menos alguns dias.” Foi o que aconteceu.... que esta escrito aqui: “Haja vista os argumentos expedidos. Suspenso por 60 dias o andamento da liminar. Oferece-se com urgência ao Batalhão da Polícia Militar.”

G.R.: Se não conseguisse isso... como é que é? O pessoal ia para onde?

P.S._01: O pessoal ia para a rua. Porque, nem eu mesmo, que trabalho, eu não tenho dinheiro para alugar. Eu ia ter que esperar até o dia 10. Para agente pegar o dinheiro e alugar alguma coisa. Porque ninguém aqui... Pegou todo mundo desprevenido. Sexta feira: Agente não sabia o que é que era. Segunda feira a gente já soube o que é que era. De uma segunda para a outra, agente ia ficar onde? No meio da rua. Então, agente não tinha para onde ir mesmo. Ontem, agente recebeu essa notícia. Agente comunicou todo mundo. Todo mundo ficou contente. É o tempo que, esses dois meses, para a gente correr atrás e alugar alguma coisa quem tiver condições. Quem não tem... não sei. Não sei o que agente pode fazer.

P.S._02: ...146 crianças, né?

P.S._01: 144 crianças.

P.S._02: 144 crianças de zero a catorze anos. Então acho que... essas crianças ficarem na rua... Acho que é... Dá dó, né? Não só as crianças como outras pessoas também humildes. Tem pessoas que são carroceiras, não tem emprego. Sempre puxando carroça para poder se manter, sobreviver... Têm pessoas que às vezes tem três, quatro filhos... crianças recém nascidas. Acho que o poder público podia dar uma olhada por essas pessoas humildes, que procuram ter uma moradia digna e fazer alguma coisa por nós.

P.S._01: Inclusive, ontem, eu até peguei... a certidão de nascimento das crianças... Me orientaram: “Vai no Conselho Tutelar”. Peguei todas as xérox. Encaminhei. Cheguei lá, entreguei para o pessoal. Pedi ajuda, né? É o que agente precisa. O conselho tutelar, pelo menos, vai cuidar das crianças... E vão tentar ver o que podem fazer, né?

G.R.: É obrigação... Na verdade, deveria ser... É muita criança.

P.S._01: Então... Ela falou também para ir no conselho do deficiente e do idoso....